Da nuvem para a terra: agricultura digital avança no RS - Agora Já -

Da nuvem para a terra: agricultura digital avança no RS



Processamento de informações, por meio de aplicativos e softwares, ajuda produtores a colher mais por hectare e a gerir seus negócios

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4 de outubro de 2019

Quando a agricultura de precisão começou a gerar os primeiros dados nas lavouras brasileiras, no começo dos anos 2000, as decisões eram tomadas em ambiente off-line. As informações sobre a variabilidade das áreas agrícolas continuam sendo a base para prever correções assertivas do solo. A diferença é que as análises hoje se conectam com plataformas que vão de aplicativos de celular a softwares mais complexos — na era onde o digital impera.

— A agricultura digital, ainda em estágio inicial de disseminação no país, trouxe mais ferramentas para considerar a variabilidade das áreas agrícolas — explica Márcio Albuquerque, presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão do Ministério da Agricultura.

Também chamada de Agricultura 4.0, a transformação no campo nada mais é do que a digitalização de todo o conhecimento produzido por análises de solo, máquinas, equipamentos e sensores, explica o dirigente:

— Essas novas tecnologias estão aí justamente para coletar, organizar e interpretar esses dados.

Com ajuda de ferramentas digitais, produtores conseguem acompanhar as operações nas lavouras em tempo real, além de gerenciar custos e investimentos na propriedade.

— As novas plataformas e o processamento de informações na nuvem estão permitindo uma gestão com controle muito rígido de entradas e saídas e de medição da eficiência dos processos que até então não se tinha ideia — explica Telmo Amado, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Software de gestão para aumentar rendimento

Na propriedade da família Carmo, em Pontão, no norte do Rio Grande do Sul, a agricultura de precisão foi introduzida em 100% da área de 650 hectares na safra 2009/2010. Os primeiros resultados da correção de solo começaram a ser colhidos quatro anos depois – quando Diones Carmo, 52 anos, e o filho Diones Carmo Júnior, 28 anos, sentiram a necessidade de buscar outras ferramentas para continuar aumentando a produtividade dos grãos. Uma delas foi o plantio de milho e de soja à taxa variável de semente por talhão.

— A complexidade dos dados foi aumentando com informações de solo, de taxa de plantas. Passamos então a usar um software de gestão para ajudar na tomada de decisão e no controle de custos para avaliar o retorno dos investimentos — conta Júnior, formado em Agronomia.

Com o software de gestão há três anos, e agricultura de precisão há quase uma década, a produtividade média das lavouras de soja saltou de 55 sacas para 80 sacas por hectare — crescimento de 45%. No Estado, a média da última safra foi de 53 sacas por hectare. No milho, o produtor aumentou 25% o rendimento, passando de 160 sacas por hectare para 200 sacas.  A média estadual do último ciclo foi de 125 sacas.

— A gestão também precisa ser digital. Estamos entrando em um período de rastreabilidade para ter domínio de todas as operações, do plantio à colheita — detalha Júnior, que no inverno cultiva trigo e aveia branca e preta.

Para isso, a família Carmo eliminou quase a totalidade de planilhas em papel e em Excel. A propriedade ainda não conseguiu ser 100% digital por problemas de conectividade, de máquinas que não conversam entre si à deficiência do sinal de internet. Sem conexão, as estatísticas geradas por equipamentos são salvos de forma off-line. De um pen drive, após o término das operações, as informações são jogadas na nuvem.

— Esse delay nos impede de gerar relatórios e agir em tempo real. As tecnologias agrícolas avançam, mas a infraestrutura no Brasil não acompanha — lamenta o produtor.

Plataforma para união de dados

Com uma ferramenta digital para reunir todos os dados gerados na lavoura de 500 hectares em Chapada, no norte do Estado, a produtora e agrônoma Luciane Rheinheimer, 47 anos, está organizando as informações do rendimento da produção à gestão. Ao lado da irmã, a administradora Lucimara Rheinheimer, 44 anos, está formando um banco de conhecimento para possibilitar investimentos assertivos na propriedade.

— Hoje o nosso maior desafio é alimentar essa plataforma com uma imensidão de dados. É um processo trabalhoso, de muita dedicação — afirma Luciane.

Há nove anos, as irmãs vêm investindo em fertilidade do solo com a agricultura de precisão e na profissionalização dos processos. Nos últimos cinco anos, a produtividade média da soja aumentou 35%.

— Isso é decorrente dos investimentos em fertilidade, manejo e genética. Isso tudo nos ajuda a tomar decisões direcionadas aos gargalos da propriedade — detalha a produtora.

As irmãs assumiram o negócio após a morte precoce do pai, há 18 anos. Na época, no começo dos anos 2000, a fazenda tinha apenas dois anos.

— Quando assumimos, tivemos um ano de safra normal e depois sucessivas estiagens, entre as quais a pior da história, em 2005. Isso nos fortaleceu e nos ajudou a ter cuidado com os investimentos, especialmente os imobilizados — lembra Luciane.

Algoritmo será usado na adubação do solo

O avanço da agricultura digital nos últimos anos revolucionou a maneira como os produtores fertilizam o solo e protegem as lavouras de plantas invasoras, doenças e insetos.

— Temos ferramentas que permitem reduzir em até 80% a quantidade de herbicidas aplicados nas lavouras — exemplifica Telmo Amado, professor da UFSM.

O que ainda não é utilizado na prática nas lavouras está em desenvolvimento no campo científico. Na Estação Experimental Agronômica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Eldorado do Sul, pesquisadores estão usando inteligência artificial com base em imagens produzidas por satélites e drones para fazer recomendações de adubação nitrogenada à taxa variável nos cultivos de milho, trigo e soja.

—  O algoritmo está sendo desenvolvido de acordo com as condições climáticas e de solo do Estado. O objetivo é melhorar a eficiência do uso de nitrogênio e, consequentemente, aumentar a produtividade agrícola — explica Christian Bredemeier, professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS.

O que é agricultura digital

O conceito, também chamado de Agricultura 4.0, é atribuído ao grande guarda-chuva que envolve a geração de dados por meio de ferramentas de agricultura de precisão, controle de pragas e doenças, monitoramento meteorológico e gestão da propriedade. As informações digitais geradas por equipamentos, aplicativos e softwares são integradas na nuvem – onde os dados da lavoura e de gestão são analisados de forma conjunta.

Mapa da cobertura do Brasil agrícola

Para fazer a agricultura digital avançar no Brasil, o país tem duas barreiras que precisam necessariamente ser rompidas: a baixa conectividade e a escassez de mão de obra qualificada.

— Ainda temos uma quantidade pequena de profissionais capacitados para trabalhar com todos esses dados gerados nas lavouras — lamenta Márcio Albuquerque, presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão do Ministério da Agricultura.

Sem estatísticas oficiais sobre sinal de celular e internet no campo, o governo federal encomendou pesquisa sobre a cobertura do Brasil agrícola à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

— A ideia do projeto é fazer um levantamento da localização das antenas nas áreas de maior produção agrícola brasileira, a fim de priorizar os investimentos que precisam ser feitos — explica Albuquerque.

O cenário mundial

O avanço da agricultura digital esteve no centro dos debates do 5° Congresso Sul-Americano de Agricultura de Precisão e Máquinas Precisas (Apsul América), realizado nos dias 24 e 25 de setembro, em Não-Me-Toque. O evento reuniu mais de 800 pessoas no parque da Expodireto Cotrijal. Em um dos painéis, pesquisadores dos principais países produtores de alimentos abordaram os desafios e as tendências no uso de dados nas lavouras.

ESTADOS UNIDOS

“As novas ferramentas digitais capacitarão os agrônomos a serem mais efetivos e precisos (rápidos e minuciosos) ao explorar um grande número de dados. Os agricultores precisam de soluções que entreguem algo.” diz IGNÁCIO CIAMPITTI, Professor da Kansas State University.

A questão é a rapidez com que os agricultores se adaptarão à revolução no espaço da agricultura digital e passarão para um processo de tomada de decisão agrícola baseado em dados.

HOLANDA

“O big data desempenha papel central no apoio ao desenvolvimento de políticas e à tomada de decisões estratégicas sobre fatores externos que o impulsionam para mudanças nos níveis nacional e global.” explica CORNE KEMPENAAR, Professor da Universidade de Wageningen.

Os desafios passam por educação e habilidades em gerenciamento de dados, além da conscientização do valor agregado dessas informações.

BRASIL

“O momento atual é promissor e também perigoso. É necessário aprender a trabalhar com os dados como parte de um todo. Informações isoladas têm pouca ou nenhuma utilidade.” diz ANTÔNIO LUÍS SANTI, Professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O importante não é a quantidade de dados gerados, e sim, o que fazemos com as informações que realmente importam. A gestão no campo precisa de mais informações e menos especulação.

ARGENTINA

“As novas tecnologias cresceram junto com o avanço dos satélites. A gestão de informações com plataformas inteligentes e uso de satélites é um caminho sem volta.”, explica FERNANDO MIGUEL SCARAMUZZA, Pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia Agrícola (Inta).

Um dos melhores informantes do produtor é o mapa de rendimento da colheita. Há um potencial muito grande ainda para adoção de tecnologia no campo.

*Fonte: GaúchaZH / Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS


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