Investigação sobre crianças esquartejadas em Novo Hamburgo completa um ano sem solução - Agora Já -

Investigação sobre crianças esquartejadas em Novo Hamburgo completa um ano sem solução



Delegado responsável pela investigação diz que informações continuam chegando, ainda não há avanços. Caso gerou processo que tramita na Justiça contra delegado interino, que apresentou versão falsa sobre um suposto ritual satânico.

4 de setembro de 2018

A morte e o esquartejamento de duas crianças em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, completa um ano nesta terça-feira (4) sem que os corpos sequer tenham sido identificados. O caso é cercado de mistério desde a abertura, e sofreu duas reviravoltas: no momento em que o crime passou a ser atribuído a um ritual de magia negra, o que chegou a levar sete pessoas inocentes para a cadeia, e depois, quando se descobriu que toda essa história tinha sido inventada por um informante.

“Nossa esperança é que eu ainda vá chegar à autoria. Um ano de investigação é um tempo precioso para um inquérito de homicídio, é um tempo muito precioso que se passou. Mas trabalhamos com expectativa de conseguir autoria”, afirma o delegado Rogério Baggio, dizendo que não há pretensão de remeter o arquivamento do inquérito ao Judiciário.

O 4 de setembro era o primeiro dia do delegado Rogério Baggio à frente da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo. “Cheguei para trabalhar às 8h30, e às 9h chegou esse caso”, lembra Baggio. “Esse é um dos motivos pelos quais eu tenho uma ‘coisa’ com esse inquérito.”

“Foi meu primeiro caso na homicídios, tenho uma coisa com ele, tenho que resolver”

O corpo de ambas foi encontrado por um catador de material reciclado que desconfiou de caixas deixadas em um matagal às margens da Estrada Porto das Tranqueiras, no bairro Lomba Grande, região afastada e pouco habitada de Novo Hamburgo.

Os corpos estavam dentro de sacos de lixo que estavam em caixas de uma marca de sabão em pó que sequer é vendida no Rio Grande do Sul. Exames de DNA confirmaram que se tratam de um menino de 8 anos, e uma menina de 12, irmãos por parte de pai.

As cabeças de ambos nunca foram encontradas. As digitais, apesar de estarem em boas condições, não ajudaram na identificação, mesmo depois da consulta feita junto a outros estados, uma vez que a polícia suspeita que os irmãos podem ser de fora do Rio Grande do Sul. Baggio salienta que a localização das cabeças seria importante para a elaboração de uma imagem das crianças, o que ajudaria com uma possível identificação.

“Não tivemos nenhum avanço, nem na identificação das vítimas, que nós não sabemos quem são até hoje. Recebemos mais documentos de outros estados, que têm chegado aos poucos, mas todos com resultado negativo [para identificação], possivelmente eles não têm cadastro […] A cada dia que passa, eliminamos algumas circunstâncias, mas nenhuma luz, nenhum avanço, estamos eliminando possibilidades”, afirma o delegado Baggio, que retomou a investigação iniciada por ele, apesar do hiato provocado pela história do ritual satânico.

“Infelizmente nem todo o crime de homicídio a gente consegue chegar a autoria. Mas esse caso, em particular, teve a repercussão que tomou, e isso foi prejudicial porque desviou o rumo das investigações. São crimes graves envolvendo duas crianças”, lamenta.

Revelação

(Foto: Daniel Favero/G1)

A primeira reviravolta do caso aconteceu no final de 2017, durante as férias de Rogério Baggio, quando o caso passou a ser temporariamente conduzido pelo delegado Moacir Fermino. Naquele final de ano, quatro pessoas foram presas e outras três passaram a ser procuradas, suspeitas de participação em um ritual de magia negra que teria resultado na morte das crianças.

Entre elas, estava um homem apontado como “bruxo”, líder de um templo situado em Gravataí, também na Região Metropolitana, que havia recomendado um sacrifício humano como um ritual de prosperidade, solicitado por dois homens. Pelo “serviço”, teriam pago R$ 25 mil. Os envolvidos negaram as acusações.

Durante entrevista coletiva para esclarecer as prisões, Fermino alegou ter recebido informações de um “profeta”, que seria seu principal informante. O delegado, que é evangélico, também não detalhou quais seriam as provas materiais coletadas pela polícia, somente apresentou objetos recolhidos nos locais investigados.

No mesmo dia, Baggio foi convocado a retornar das férias e reassumir o caso. Mais um homem apontado como suspeito chegou a ser localizado e preso, antes da segunda reviravolta: a história havia sido inventada.

Todas as prisões foram revogadas em fevereiro, e a atuação da equipe de investigação passou a ser alvo de um outro inquérito, dessa vez na Corregedoria-Geral da Polícia. Três pessoas foram indiciadas: o delegado Fermino, o inspetor Marcelo Cassanta e Paulo Sérgio Lehmen, apontado como informante.

O inquérito gerou uma denúncia do Ministério Público do RS, que foi acolhida pela Justiça e tramita na 2ª Vara Criminal de Novo Hamburgo. A denúncia aponta que a história sobre o ritual foi inventada por Paulo Sérgio Lehmen, que a repassou para Fermino, que, por sua vez, produziu o relatório que baseou os pedidos de prisões, deferidos pelo Judiciário.

Segundo a denúncia, o relatório “não espelha a realidade”, já que, conforme investigação da Corregedoria-Geral, não foram realizadas as longas investigações e as campanas citadas no próprio documento. O inspetor Cassanta é apontado na denúncia por ter feito uma inclusão de informações falsas no relatório, e Fermino, por ter feito três. Fermino e Lehmen também respondem por oferecerem vantagem às testemunhas com o fim de obter provas.

*Fonte: G1 RS 

 


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