Sergio Moro não é mais ministro da Justiça. Com um discurso forte, permeado por revelações importantes, o anúncio da saída foi feito nesta sexta-feira, em Brasília, horas depois da confirmação da demissão do diretor-geral da Polícia Federal. Moro é o segundo ministro a deixar o governo federal em pouco mais de uma semana.

A saída de Moro quase se tornou oficial nessa quinta, assim que soube da intenção de Bolsonaro em exonerar Maurício Valeixo. A ala militar da administração havia conseguido convencer o ministro a permanecer, mas a gota d’água foi a confirmação da demissão de Valeixo.

Confira os principais trechos da entrevista do ex-Ministro Sérgio Moro

Ex-Ministro fala da manutenção da autonomia da Polícia Federal.

– No final de 2018, eu recebi o convite de Jair Bolsonaro. Já repeti diversas vezes, fui convidado a ser ministro. O que foi conversado com o presidente, foi que teríamos o compromisso com o combate a corrupção, crime organizado e criminalidade violenta. Foi me prometido carta branca para nomear todos os assessores, inclusive desses órgãos, a própria Polícia Federal – relata o ministro.

– Em todo esse período, tive apoio em projetos, outros nem tanto. Mas a partir do ano passado, houve uma insistência do presidente na troca do comando da PF. Houve o desejo de trocar o superintendente do RJ primeiro. Eu não via motivo para essa demissão. Mas conversando com ele, ele queria já sair, mas houve uma substituição técnica. Eu não indico superintendentes na PF, o único que eu indiquei foi o Valeixo. Não é meu papel fazer indicação. E assim tem sido o ministério como um todo. Dando autonomia para que eles façam as melhores escolhas, técnicas – diz Moro.

– O presidente no entanto passou a insistir na troca do diretor-geral, eu disse: eu não vejo problema, mas eu preciso de uma causa, ocasionada por desempenho, erro grave. No entanto, o que eu vi, é que é um trabalho bem feito. Várias dessas operações importantes, contra crime organizado.

– Tem outros bons nomes para assumir o cargo. O grande problema de realizar essa troca é que haveria uma violação da promessa que me foi feita, de carta branca. E haveria uma interferência política na PF. (…) Ia gerar uma desorganização. Não aconteceu durante a lava-jato, durante governos anteriores.

– O problema na conversa com o presidente, é que não era só a troca do diretor. Haveria intenção de trocar superintendentes, do Rio, de Pernambuco. Sem que me fosse apresentado uma razão para realizar estes tipos de substituições que fossem aceitáveis. Dialoguei muito tempo com o presidente. Procurei postergar com essa decisão – Diz Moro.

Falei para o presidente que seria uma interferência politica, ele disse que seria mesmo. Mas pra evitar uma crise durante a pandemia, eu sinalizei substituir Valeixo por alguém com perfil técnico, que fosse sugestão minha, da própria PF. Sinalizei Disney Rosseti, mas não obtive resposta

– O grande problema é que não é tanto quem colocar, mas por que colocar. E permitir que seja feita a interferência política no âmbito federal. O presidente disse várias vezes que queria alguém do contato dele, que pudesse fazer ligações, colher relatório. E não é o papel da PF prestar esse tipo de trabalho – relata Moro.

– A autonomia da Polícia Federal, com respeito a aplicação da lei, seja a quem for, isso é um valor fundamental que temos que preservar num estado democrático de direito.

Moro desmente Bolsonaro sobre demissão à pedido de Valeixo, e afirma que não assinou demissão

Moro continua: “Há uma possibilidade que se afirma que Valeixo gostaria de sair, mas isso não é totalmente verdadeiro. O ápice de qualquer delegado é a direção geral da PF. E ele entrou com uma missão. Claro que depois de tantas pressões, ele de fato manifestou a mim ‘talvez seja melhor eu sair para evitar essa cisma'”.

O presidente tinha preocupação com inquéritos em curso na PF e que a troca (de Valeixo) seria oportuna por esse motivo. Também não é uma razão que justifique. É até algo que gera uma grande preocupação – diz Moro

– Entendi que eu não podia deixar de lado esse meu compromisso com o estado de direito. A exoneração eu fiquei sabendo pelo DOU. Eu não assinei esse decreto. Em nenhum momento houve um pedido formal – afirma o ministro.

– Fui surpreendido, achei ofensivo –  diz Moro sobre exoneração de diretor-geral da PF

–  Pra mim, este último ato é uma sinalização que o presidente me quer fora do cargo. Essa precipitação na desoneração, não vejo outra justificativa – completa.

– De todo modo, o meu entendimento foi que eu não tinha como aceitar essa substituição. Há uma questão envolvida da minha biografia como juiz: a lei, a impessoalidade. E eu vivenciei isso durante a Lava-Jato. Eu não me senti confortável. Tenho que preservar a minha biografia e o compromisso que eu assumi, com o próprio presidente, de combate a corrupção. E o pressuposto a isso, é que temos que garantir a lei e a autonomia da PF.

– Vou começar a empacotar as minhas coisas e vou providenciar o encaminhamento da minha demissão – diz Moro, anunciando que deixa o ministério