Ao Ministério Público do RS, ex-diretor da unidade de saúde confessou ter utilizado contas do hospital para pagar obras em templo da Igreja do Evangelho Quadrangular
Foto: Igreja recebeu obras pagas com recursos desviados do Pronto Socorro de Pelotas.
Douglas Dutra / Agencia RBS O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ingressou com uma ação civil pública contra a Igreja do Evangelho Quadrangular cobrando uma indenização de R$ 179,4 mil por recursos desviados do Pronto Socorro (PS) de Pelotas. O ex-diretor do PS e membro da igreja, Misael Aguiar da Cunha, também é alvo da ação — ao MPRS, ele confessou ter realizado os desvios. Dele, o Ministério Público cobra a devolução de R$ 165,3 mil em desvios. No total, o prejuízo aos cofres públicos chega a R$ 344.744,49.
Segundo a denúncia, apresentada pelo promotor José Alexandre Zachia Alan, os desvios ocorreram entre janeiro de 2022 e março de 2023. Cunha, que é filho da pastora da congregação do Jardim Europa, no bairro Areal, se aproveitava da condição de diretor administrativo e financeiro do Pronto Socorro para benefício próprio, da igreja e dos próprios pais.
Os desvios se davam através de contratos com três prestadores de serviços. Em um dos casos, uma empresa de construção recebeu R$ 126 mil das contas do PS para realizar obras de reforma na igreja. Além disso, o MPRS identificou que Misael fez um pagamento de R$ 16 mil para a empresa e, alegando ter sido um engano, solicitou a devolução dos recursos para a própria conta.
Outro caso envolveu uma empresa de esquadrias que jamais prestou serviços para o Pronto Socorro e recebeu R$ 40 mil para a confecção de janelas e portas para a igreja. Através desta empresa, Misael desviou R$ 42,5 mil para a própria conta.
O terceiro caso envolveu uma empresa de marcenaria que recebeu R$ 13 mil para a confecção de móveis planejados para a igreja e R$ 36,8 mil para móveis sob medida para os apartamentos de Misael e dos pais. Esta é a única empresa neste processo que de fato chegou a prestar serviços ao PS. Por esta empresa, Misael recebeu R$ 69,8 mil na própria conta.
Ao Ministério Público, Misael confessou ter realizado os desvios. Procurada, a defesa de Misael da Cunha afirma que ainda não foi intimada e que “só podemos dar alguma posição após conhecimento da demanda”.
A reportagem tenta contato com representantes da Igreja do Evangelho Quadrangular Jardim Europa, mas não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto.

As suspeitas de desvios do Pronto Socorro de Pelotas começaram a ser apuradas pelo Ministério Público no começo de 2024, através da Operação Contágio. Segundo um balanço apresentado em outubro de 2025, a investigação já identificou ao menos R$ 1,4 milhão em desvios do Pronto Socorro, operados pelo ex-diretor administrativo e financeiro, Misael da Cunha.
Os desvios foram identificados pelo então diretor do Hospital Universitário São Francisco de Paula (Husfp), que presta o serviço de pronto-socorro para o município de Pelotas. Embora o hospital fosse o prestador do serviço, o cargo de direção era indicado pelo município e tem autonomia para a gestão das contas.
De acordo com a investigação, desvios eram realizados através de pagamentos sem nota e emissão de notas duplicadas para a prestação de serviços de portaria. Em fases anteriores, Misael da Cunha e o proprietário da empresa de portaria, Roberto Carlos Leão, foram denunciados por peculato, corrupção ativa e corrupção passiva. Ambos confessaram participação no esquema, conforme o MP. Nos casos das empresas de reforma, esquadrias e marcenaria, não foi identificada a participação dos empresários.

Além do MP, o caso também foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara de Vereadores de Pelotas, que identificou R$ 773,7 mil em pagamentos sem nota fiscal e R$ 1,5 milhão em notas duplicadas pelo serviço de portaria.
Em agosto de 2024, Misael foi denunciado pelo desvio de R$ 258,3 mil das contas do PS. Em fevereiro de 2025, ele foi preso preventivamente para evitar o contato dele com possíveis testemunhas. Em maio de 2025 ele foi solto e passou a responder em liberdade.
Total para a igreja: R$ 179.424,11
(55) 3375-8899, (55) 99118-5145, (55) 99119-9065