“Preocupação é não deixar reduzir a área de arroz”, diz ministra da Agricultura - Agora Já -

“Preocupação é não deixar reduzir a área de arroz”, diz ministra da Agricultura



Tereza Cristina também aborda a questão da vacinação contra aftosa no RS

Foto: Reprodução Internet / Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
16 de fevereiro de 2020

Depois de dois meses sem pisar em Mato Grosso do Sul, onde tem sua base eleitoral e é produtora rural, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, participou neste final de semana de um evento de seu partido em Dourados. À frente de um dos ministérios mais estratégicos do governo Jair Bolsonaro, a engenheira agrônoma e deputada federal pelo DEM se dedica ao Plano Safra e à recuperação da imagem do Brasil no Exterior. A demora para reagir no caso das queimadas na Amazônia e as declarações do presidente da República e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por pouco não prejudicam importantes mercados para o agronegócio brasileiro. Ex-presidente da bancada ruralista e pragmática, Tereza Cristina não gosta de alimentar polêmica e agiu como bombeiro na crise. Nesta entrevista, ela fala sobre a situação dos arrozeiros gaúchos, a retirada da vacinação contra a aftosa no Rio Grande do Sul e os efeitos do dólar alto. Atrás da mesa da ministra, lotada de papéis, imagens de diferentes santos chamam a atenção de quem entra no gabinete:

— São presentes que as pessoas vão me dando. Tenho santo de tudo que é tamanho, até para carregar na bolsa.

O Ministério da Agricultura prepara o Plano Safra dentro da realidade da menor taxa Selic dos últimos tempos. Haverá queda de juro para a agricultura? 

O ideal para a agricultura era ter menos do que a taxa Selic, ter um juro negativo. Esse é o sonho da agricultura, mas ainda não conseguimos. Imagino que vai cair, pois a economia vem mostrando consistência nesse juro básico. É uma conta muito complexa. Estamos trabalhando para ver se, no mínimo, damos um incremento ao que foi ano passado, dos R$ 10 bilhões da subvenção. Vamos também tentar aumentar o valor do seguro, pois esse é um dos fatores que podem começar a ajudar a baixar o juro.

Um seguro mais robusto para o produtor pode ser a grande novidade do Plano Safra? 

Seria a continuidade do que a gente vem fazendo. No nosso orçamento, temos R$ 1 bilhão para este ano, mais do que dobrou o valor do ano passado. Isso tem reflexo, não tenha dúvida. Estamos trabalhando para o próximo Plano Safra para ver se conseguimos alocar R$ 1,5 bilhão.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que todos ganham com a alta do dólar. A senhora concorda? 

Para a agricultura, é bom quando o dólar sobe, pois o Brasil é um país exportador. Mas precisamos lembrar que importamos os insumos. Ele (o dólar elevado) ajuda para a exportação, mas tem de ver o impacto que isso terá na importação de fertilizantes e defensivos agrícolas.

Por falar em custos, a lavoura arrozeira gaúcha passa mais uma vez por crise. O que o governo pode fazer? 

Não podemos olhar a economia e a agricultura pontualmente. Se não incentivarmos, se não tivermos o produtor sendo remunerado, ele vai sair da atividade. É o que está acontecendo no Rio Grande do Sul com o arroz. Ele deixa a atividade, diminui a área, e o preço sobe internamente para o consumidor. Isso tem de ser jogo de equilíbrio. Temos de trabalhar com políticas públicas sabendo o consumo nacional, o que deve ser incentivado para aquela cadeia produtiva, as exportações. Você tem de ter planejamento estratégico para que não se tenha muitos desequilíbrios.

 O governo está preocupado com o desabastecimento de arroz? 

A nossa preocupação é não deixar reduzir essa área (de arroz).  Quantos anos temos de problema com o arroz? Vinte anos. Muita gente teve de sair da atividade. O governo está procurando uma saída para não deixar que essas pessoas saiam da atividade.

 Qual é a saída para o arroz, principalmente para o do Rio Grande do Sul, com características próprias, como o arrendamento das áreas? 

São várias soluções. Temos gente que saiu da atividade, que são arrendatários, temos o arroz que entra dos países do Mercosul – que também causa desequilíbrio. O Rio Grande do Sul teve o infortúnio de ter inundação no ano passado, seca violenta, granizo. O Estado teve o ambiente climático mais perverso possível. Por isso, o seguro é importantíssimo. Estamos trabalhando e conseguimos abrir mercado. Estamos tentando arrumar essa atividade e vamos ter de trabalhar o endividamento desses produtores.

 Vai haver processo de renegociação de dívidas? 

Renegociação está no manual de crédito rural. Mas só renegociar a dívida não resolve. A renegociação já está aberta, tem instituições fazendo, mas não é suficiente e você posterga o problema. A cadeia do arroz é uma cadeia particularmente diferente e estamos trabalhando para ver o que podemos fazer a mais do que em outras cadeias produtivas.

O Rio Grande do Sul está pronto para retirar a vacina contra febre aftosa? 

Disseram o governador, o secretário e vários deputados que estiveram aqui que está. Recebi uma carta do governador pedindo a antecipação da vacina para eles poderem entrar no calendário do bloco que quer retirar a vacina de aftosa. Nós fizemos auditorias. A primeira foi muito ruim, a segunda foi bem melhor e, agora, me disseram que o Rio Grande do Sul melhorou muito. Mas isso é uma responsabilidade do Estado e dos produtores rurais. Não adianta só o Estado querer resolver, os produtores têm de ter a consciência de que estão prontos para fazer essa retirada. Não existe circulação viral nas análises que vêm sendo feitas. Teoricamente, o Rio Grande do Sul está pronto. Agora, tem ações que vão ter de ser continuadas, de fiscalização, de barreiras. Não é só retirar e achar que está tudo bem.

É para este ano ainda?  

A retirada sim, mas ela leva dois anos, porque primeiro você diminui a dose e depois retira completamente.

Em entrevista recente, a senhora reconheceu falhas no avanço agrícola na região da Amazônia. O que dá para ser feito agora? 

Esse avanço já vinha acontecendo, não tem nada a ver com esse governo. Já estamos fazendo políticas públicas, como a da regularização fundiária para sabermos quem é quem, o que está fazendo, se está dentro das leis brasileiras. Precisamos ter essa fotografia bem clara para ter certeza das ações que estão sendo planejadas e que em breve estarão implementadas para, assim, ter sucesso.

 A senhora avalia que se chegou ao limite de abertura de área agrícola na Amazônia?  

O Brasil é uma democracia, com regime capitalista e que tem regras. Você comprou uma terra, está desmatando todo ano um pouquinho da sua área, você tem direito, pela legislação, sobre isso. Eu não posso lhe impedir. O que vamos fazer é implementar políticas de incentivo àqueles que querem preservar. Você só dificultar, multar e excluir não é suficiente para parar o desmatamento.

Toda a crise que ocorreu no ano passado relacionada ao ambiente comprometeu a imagem do Brasil no exterior. Como é possível recuperar essa imagem?  

A agricultura brasileira sabe da importância do meio ambiente para continuar nessa ascensão de sucesso. Não vejo que o produtor de fato, aquele que produz e que tem alta produtividade não tenha os cuidados com o meio ambiente. Temos de usar essas ferramentas tecnológicas, porque é uma hipocrisia achar que vamos ter fiscal para olhar isso tudo, olha a dimensão do Brasil.

 O governo tem de deixar mais claro para o mercado externo que existe, de fato, preocupação com o meio ambiente? 

Acho que sim. Acho que o Brasil tem de mostrar para o mercado que existe um desconhecimento enorme. Se você pegar a Amazônia, são 2,3%, 2,4% de agricultura e 10%, 10,5% de pecuária. Isso é muito pequeno perto da dimensão da produção brasileira de soja, de milho, de grãos e de pecuária de carne. Sim, a pecuária avança, porque é mais fácil, mas, cada vez mais, o custo do desmatamento é muito alto. Então, se tivermos políticas para incentivar o crédito e outras de estímulo à produtividade,  podemos congelar essa fotografia da Amazônia.

Mas o que fomentou a polêmica no ano passado foram as declarações do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nesse sentido, é possível reverter? 

Sim, mas reverter com números, com fatos. Com cases de sucesso. Na quinta-feira, recebi um gráfico das emissões de todos os países do mundo. O Brasil está superbem. A agricultura brasileira precisa dizer o que ela é, o que faz, como faz e mostrar fatos. Isso não é ufanismo, o Brasil é uma potência agroambiental.

A epidemia de coronavírus vai atrapalhar o agronegócio a partir de agora?  

Claro que existe preocupação, mas não podemos passar do ponto para não virar uma catástrofe. Estão trabalhando para manter esse vírus o mais fechado possível, dentro da China. Se os portos chineses, que estavam parados até pouco tempo, retomarem o movimento normal – e eu acho que vão – não vejo motivo para temor. A gente tem de aguardar e ser muito cauteloso. Espero que não afete a demanda de produtos brasileiros pelos chineses.

Os Estados Unidos vão finalmente reabrir o mercado para a carne in natura do Brasil? 

I hope so (risos). (Eu espero que sim, em inglês)

Quando? Existe alguma previsão de data?  

Essa é a pergunta: When? (quando, em inglês). É uma questão técnica. É claro que a boa vontade política existe, mas temos alinhamento com um tanto de países e olha o tempo que demora. O certificado sanitário é chato, demorado. Exige missão daqui, dali. Você não pode ter inseguranças nessa parte. Existe um trâmite técnico que é difícil de resolver.

Como será a vida com o novo ministro da Casa Civil, o general Braga Netto? Dizem que ele vem para ser uma espécie de gerentão…  

Não o conheço ainda. Faz parte da política. Política é isso.

 

*Fonte: GaúchaZH


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