Retorno do futebol no RS divide opiniões de segmentos da sociedade - Agora Já -

Retorno do futebol no RS divide opiniões de segmentos da sociedade



Gauchão está marcado para ser retomado na próxima quarta-feira

Foto: Porthus Junior / Agencia RBS
19 de julho de 2020

Há argumentos consistentes e argumentadores respeitáveis (e respeitados) dos dois lados da questão. O retorno do futebol divide opiniões e de certa forma assume um protagonismo em meio à pandemia de covid-19 no Estado. Ser o esporte mais popular do país dá ao futebol a possibilidade de servir como distração, tão importante para a saúde mental após quatro meses do fim da rotina normal. Mas há também o risco de que o retorno passe a mensagem de que a velha rotina está de volta.

O Rio Grande do Sul registra uma curva ascendente de infecções por coronavírus. No último mapa apresentado pelo governo do Estado, apenas duas regiões não estão sob bandeira vermelha, e ainda assim passam por restrições, com comércio e outras atividades suspensas ou reduzidas. Comemorar gol em um cenário desses pode parecer incoerente. Além disso, os jogos teriam potencial de induzir as pessoas a promover encontros e aglomerações para assistir na TV, uma vez que não haverá torcida.

Por outro lado, o futebol profissional é um segmento da economia que emprega cerca de 3 mil pessoas diretamente. Em levantamento recente, ficou apontado que 1 mil têm carteira assinada com clubes da primeira divisão do Gauchão. Este setor criou suas condições obedecendo os exemplos de sucesso no mundo, com testagem frequente e higienização de ambientes. Além disso, o RS registrava aglomerações em diversas cidades mesmo sem jogos.

Não há, até o momento, pesquisa que demonstre a posição de parte da população a respeito do tema. Assim, consultamos diversos setores da sociedade, de ligados a alheios ao futebol, para buscar visões diferentes sobre essa retomada.

Pedro Hallal, reitor da UFPel

“É um erro porque, por mais que os protocolos tentem ser rígidos, eles têm falhas. Toda rigidez cai por terra depois que (o protocolo) começa a ser executado. Se um jogador for ao supermercado e for contaminado, não vai aparecer no teste, e ele pode contaminar a todos. Não é seguro em termos em disseminação da doença. A estrutura dos clubes é diferente. Grêmio e Inter são mais capazes de criar uma ‘bolha epidemiológica’. Outros, não sei se vão conseguir. Por mais que me doa dizer isso, enquanto torcedor xavante, considero o Caxias o campeão gaúcho de 2020. Porque enquanto o campeonato aconteceu com o mínimo de razoabilidade, o Caxias ganhou. Vamos mais longe: a Olimpíada foi cancelada, não só pelo fato de que a época dos jogos poderia ter pandemia. Foi transferida porque afetou os treinamentos, gerando desequilíbrio técnico grande. Aqui, no RS, um jogador de determinada cidade teve capacidade maior ou menor de acordo com a evolução da pandemia no local. E tem a parte mais importante, que é o torcedor. Aqui em Pelotas, vamos ter um Bra-Pel na quinta-feira e ninguém fala disso, diferentemente de qualquer outra vez. A pauta da pandemia é mais importante. Sou fascinado por futebol. Se a curva estivesse na descendente, como em Manaus, eu estaria aplaudindo. Mas nosso Estado é um dos que viu a média móvel mais aumentar nos últimos dias. A teoria que defendo desde o início é de que, se fizermos um distanciamento mais rigoroso, voltamos mais rápido. É o grande erro do Brasil. Em vez de fazer um grande sacrifício por um mês, um mês e meio, fizemos pequenos sacrifícios por três, quatro meses. Se fizermos um lockdown rigoroso, para colocar a curva na descendente, serei o primeiro a defender o futebol. Até do ponto de vista econômico é importante. Sou contra o Gauchão agora porque não é seguro, não é equilibrado e não empolga.”

Ernani Polo, deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa do RS

“É necessário que nossa sociedade aprenda, cada vez mais, a conviver com protocolos e a assumir também as suas responsabilidades no combate à pandemia. A volta, como está proposta, tem controle rígido nos estádios. Agora, é importante que o torcedor se conscientize de que não é momento de aglomerações. Para ver o Gre-Nal. é em casa, ao lado da família, na TV, no rádio ou nas redes sociais.”

Marcos Rovinski, vice-presidente do Sindicato Médico do RS (Simers)

“Quanto à volta dos treinamentos: os clubes estão cuidando da saúde dos atletas, fazendo testes regularmente, isolando aqueles com resultado positivo, buscando os contactantes. Fazem o cuidado adequado para a covid. Se estão testados e têm cuidados de isolamento social e higienização, estão bem protegidos. Não vemos problemas. Sobre jogos, o fator mais preocupante seria o do público. Mas como não há torcida, então não há aglomeração.

Todos os jogadores são testados. O número de pessoas no campo será restrito. Não vemos óbice à realização dos jogos. Sobre aglomeração em bares, casas, que seja recomendado e avisado para que não tenha, que exista fiscalização. A população toda está há mais de 100 dias sem atividade de lazer, e o futebol reduziria um pouco o estresse do segmento que gosta do esporte. Neste momento, seria uma boa válvula de escape a esse cenário que estamos vivendo.”

Paulo Kruse, presidente Sindilojas Porto Alegre

“Entendo que é incoerente e desigual retornar com o futebol no momento em que o comércio está impedido de funcionar. Nós, comerciantes, saímos totalmente prejudicados com este cenário, pois acabamos levando a culpa pela disseminação do vírus e aumento de casos na cidade de maneira injusta. Assim como os demais setores que seguem funcionando, também temos um protocolo rigoroso para cumprir em nossas lojas. E a questão sentimental não pode ser usada como justificativa em um momento em que milhares de famílias que dependem do comércio para se sustentar já estão prejudicadas por perderem sua fonte de renda. O lazer não deve ser a prioridade agora.”

Décio Neuhaus, advogado do Sindicato dos Atletas Profissionais do RS

“Ninguém sabe se temos de esperar mais ou menos para voltar o futebol. Mas estamos sentindo angústia dos jogadores. E não falo apenas de dupla Gre-Nal, mas de todos os representados. Eles estão em busca da saúde financeira, já é quase desespero. Estão esgotados, precisam trabalhar. Sabemos que os clubes têm protocolos e que os atletas são testados, os positivos são afastados, tratados. Claro que a medida do protocolo da dupla Gre-Nal é diferente do Interior, mas não temos certeza de como vai ser o futuro. O Campeonato Carioca, por exemplo, conseguiu terminar. No Ceará, o sindicato era contra jogo às 9h, mas os jogadores pediram para jogar. A categoria quer, está necessitando. E eles não têm como fazer home office.”

Alex Bagé, presidente da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg)

“Se a pergunta fosse para mim, Alex Sandro Gonçalves, seria contrário. Pelo cenário, com aumento de ocupação de UTIs, de casos de óbitos. Vivemos um momento muito ruim, perdendo familiares e amigos. Mas, como presidente da Aceg, o entendimento é outro. Tive de batalhar para disponibilizar cestas básicas para cronistas, gente que tem a mesma profissão que nós, passando fome. A ausência do futebol prejudicou as emissoras menores e os colegas independentes, porque eles vendem cotas por transmissões, e sem patrocínio não tinham como comer.

Participei da formatação do protocolo em parceria com FGF e governo do Estado. Entendo a necessidade do futebol não como entretenimento, não como distração. Isso seria se tivéssemos torcida. Falo do futebol como atividade profissional, como economia. Trabalhamos em emissoras que, mesmo sem o esporte, mantêm em dia os pagamentos. Mas esses colegas não conseguiram e passaram por essa situação, de precisar de caridade. Com o retorno, esse profissional, mesmo sem trabalhar nos estádios, de casa, em transmissões por tubo, vai conseguir comercializar as transmissões e voltar a não depender mais de doação.”

Simone Leite, presidente da Federasul

“Todas as atividades devem retornar com cuidado, cautela e prevenção. O futebol criou esse mecanismo para voltar, sem público, acompanhando todos os profissionais. É o mesmo que entendemos que as atividades de comércio e serviço devem voltar, com todos os cuidados. No caso específico do futebol, é uma atividade profissional que ainda tem o benefício de distrair as pessoas. Considero um erro inclusive tirar de Porto Alegre, levar toda a estrutura para outra cidade, expondo as pessoas, tendo condições de sediar no local. Se pode treinamento, por que não pode jogo? Um jogo sem torcida não é diferente de um treino. Uma sociedade precisa de pão e circo. O circo está liberado, falta o pão. O pão é o trabalho, e é disso o que precisamos. Precisamos de equilíbrio.”

Aquiles Dal Molin Jr, presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do RS (Sinduscon-RS)

“O futebol é importante para todos os que gostam. Mas se pode funcionar com seus protocolos, o que concordo, quero deixar claro, não é possível que a construção civil, que comprovadamente não contribui para o aumento de contágio, continue com atividade paralisada, principalmente pela abrangência econômica e pela quantidade de empregos que gera. O futebol traz um benefício para a sociedade, trazendo momentos de distração para os torcedores, um equilíbrio emocional. Mas é incoerente, porque os jogadores estão próximos, se tocando. Na construção civil não há nada disso. Organizamos as tarefas para manter o distanciamento nas atividades, criamos um protocolo rígido. Entre a reabertura e o fechamento, não houve nenhum caso de contágio.

Sou a favor da volta do futebol, cumprindo os protocolos, mas pergunto: por que a construção civil, uma atividade de baixíssimo risco de contágio e de alta relevância na cidade, com 27 mil empregados, gerando novas moradias, uma necessidade da população, dando emprego para as pessoas mais vulneráveis economicamente, não pode ser retomada?”

 

*Fonte: GaúchaZH por Rafael Diverio


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