“Cheguei a pensar em sair”: Bernabei detalha o roteiro de suas reviravoltas no Inter - Agora Já -

“Cheguei a pensar em sair”: Bernabei detalha o roteiro de suas reviravoltas no Inter



Jogador concedeu entrevista exclusiva a Zero Hora, falou sobre a infância na Argentina, momento goleador e vida pessoal

Foto: Depois de instabilidade no início do ano, Bernabei é hoje um dos destaques do time de Pezzolano. GZH / Reprodução
21 de maio de 2026

Era fácil apresentar Bernabei. Bastava dizer “lateral-esquerdo do Inter”. Agora, ele ocupa toda a faixa. Da defesa ao ataque, o argentino é responsável por praticamente tudo o que envolve o lado. Para o bem e para o mal. Normalmente, o bem envolve atacar. E o mal diz respeito a defender.

fase goleadora do jogador o deixa ainda mais solto. E foi nesse clima que ele atendeu a reportagem de Zero Hora para uma entrevista de meia hora no CT Parque Gigante. Veja a seguir.

Costumávamos apresentar Bernabei como lateral-esquerdo do Inter. Como te apresentamos agora?

(Risos) Continuo sendo lateral e agora também com a função de ponta esquerda. Continuo com as duas.

Gosta de ser ponta?

Gosto, sim. Tenho mais liberdade, então aproveito mais para ir à frente. Consigo atacar, sem deixar de lado o compromisso de defender.

Tenho mais liberdade, então aproveito mais para ir à frente.

BERNABEI

É bom ter um jogador para dar suporte, né?

É bom. Falo muito com Matheus Bahia para me avisar quando estou mais aberto ou quando preciso ajudar na defesa. Nos complementamos muito bem, e, conversando, fica mais fácil.

Sempre foi lateral-esquerdo ou, quando era criança, jogava em outra posição?

Quando era criança, jogava mais avançado, como atacante, ponta direita, ponta esquerda.

Pela direita?

Sim, até pela direita também.

Pela função, faz sentido.

Acho que tem muito a ver com o jeito de jogar do time. A equipe me dá confiança para me sentir bem ali. Então é graças a eles que consigo jogar desse jeito.

Eu tinha muita energia, não conseguia dormir à noite, então me colocaram no futebol.

BERNABEI

Falamos dos tempos de criança, queríamos começar por aí. Como é tua história? Como tu começou no futebol, lá na Argentina?

Eu sou de Correa, uma cidade bem pequena, com 7 mil habitantes, perto de Rosario. Comecei por causa da minha avó e do meu avô. Eu tinha muita energia, não conseguia dormir à noite, então me colocaram no futebol, quando tinha uns três ou quatro anos.

Como era nesse período?

Tinha uma irmã por parte de pai, mas eu morava com a minha avó. Foi uma fase complicada em termos familiares, mas consegui superar e seguir em frente. Foi difícil. Sair da minha cidade e chegar ao futebol profissional não é fácil. Nem sabia como funcionavam as categorias de base na Argentina.

Quando fui para Rosário, comecei em uma escolinha e depois fui para o Lanús, em 2016. Ali eu vi um mundo totalmente novo, coisas que nunca tinha visto.

É verdade aquela história de que vocês comiam pombos por conta das dificuldades financeiras?

Sim, mas ali na cidade era comum. Caçávamos, pescávamos. Fui morar com minha avó por questões financeiras da minha mãe e também por conta da situação do meu pai. Foi o melhor lugar para eu crescer.

Teus avós ainda estão aqui?

Não, há faleceram. Minha avó morreu há 13 anos e meu avô há uns três.

Ah, então chegaram a te ver jogar.

Sim, meu avô conseguiu me ver no Lanús e também foi à Escócia. Foi a última viagem dele.

Como foi a experiência na Escócia?

Foi muito diferente. Cultura, idioma, clima. Fazia muito frio, tinha pouco sol. Para mim foi difícil no começo, porque eu gosto muito de sol. Mas também tem um lado incrível, a organização, o nível profissional. É outro mundo.

E dentro de campo, o que era diferente?

O jogo é mais rápido, o passe mais firme, a pressão mais intensa. É um futebol mais compacto, muito organizado.

Como surgiu o convite para vir ao Inter?

Eu precisava jogar. Coudet falou com meu agente e comigo. Para mim foi uma oportunidade muito grande. Sempre quis jogar no Brasil e me adaptei rápido, principalmente pelo grupo. No começo joguei pouco, trabalhei bastante, sempre recebi carinho do torcedor mas cheguei a pensar em sair. Depois tive oportunidade e aproveitei.

Pensou em sair? Teve propostas?

Sim, tive essa oportunidade. Mas quando o Coudet saiu e chegou o Roger, fui sincero com ele, disse que queria jogar. Ele contou comigo, fiquei e aproveitei a chance. Somei minutos e continuo aqui, trabalhando para jogar.

Chegou o Roger, fui sincero com ele, disse que queria jogar. Ele contou comigo, fiquei e aproveitei a chance.

BERNABEI

E 2024 foi espetacular. Melhor lateral-esquerdo do campeonato e vaga na Libertadores. Ainda mais com o título gaúcho. Mas então vem uma queda. Quando percebeu que as coisas não estavam bem?

Depois daquelas classificações para a Libertadores e do título, o dia a dia nos tirou a dimensão de tudo o que estava acontecendo. Tentávamos, trabalhávamos e falávamos que melhoraríamos no próximo jogo.

Nos matávamos treinando, mas chegava o jogo, não acontecia o que esperávamos. Pensávamos que seria fácil, mas tomávamos porrada. Lutamos muito, torcemos e conseguimos atingir o resultado que o grupo merecia.

Como foi aquela pressão?

Sempre vivemos a pressão, jogador é assim. Tivemos calma para enfrentar tudo, deu certo e ficamos onde o Inter merece.

Ano passado também houve um problema por conta de uma notícia de fora da editoria de esportes, no jornalismo de fofoca, sobre ti, mas que também afetou o grupo. E, neste ano, a crítica veio pelas atuações, como a do Gre-Nal, que basicamente deu o título gaúcho ao Grêmio. Como um cara que vive sempre no limite supera os problemas de campo e/ou de fora dele?

Tenho bem claro de onde venho. É o que me faz continuar trabalhando e acreditar em mim. A crítica faz parte do futebol, assim como os elogios. Tem um monte de gente falando, e não só de mim. Cada pessoa sabe qual comentário afeta mais. Há quem consiga conviver com isso.

No meu caso, sempre quis continuar trabalhando, aconteça o que acontecer, nas boas e nas más fases, sem pensar lá na frente. Isso é muito importante para mim. Se erramos, daqui a três dias tem jogo de novo. E, se errar, é preciso continuar trabalhando. Senão, sua cabeça afunda, e você fica sem personalidade. Também é bom estar rodeado de pessoas boas, que acreditam em ti. A base de tudo é nunca parar de trabalhar e acreditar em si.

Se errar, é preciso continuar trabalhando. Senão, sua cabeça afunda, e você fica sem personalidade.

BERNABEI

E como faz para manter o nível na fase boa?

É ainda mais difícil. Tem de manter os pés no chão. Continuar trabalhando e saber lidar com tudo o que aparece, porque muita coisa muda, aparecem pessoas que nunca vimos antes, que não estamos acostumados e é fácil desviar o caminho, sair da linha.

Aparecem pessoas que nunca vimos antes, que não estamos acostumados e é fácil desviar o caminho, sair da linha.

BERNABE

A lateral esquerda sempre foi uma posição em abundância no Brasil, muitas vezes com jogadores ofensivos. Na Europa, eram mais defensivos. Qual foi tua inspiração para a lateral?

É que fui lateral depois. Era ponta antes. Desci por acaso, porque um técnico da base do Lanús, Gabriel Medina, me colocou, em um treino. Foram um, dois, três treinos, um jogo. Queria voltar para o ataque, mas me adaptei, aprendi a marcar, a ter mais calma nos combates. Ainda continuo trabalhando para melhorar ofensivamente e defensivamente.

Na lista da Seleção Brasileira para a Copa, os dois laterais esquerdos são predominantemente defensivos. É uma mudança no futebol ter jogadores mais defensivos do que o período anterior, com Roberto Carlos, Marcelo, Sorín e outros?

Sem dúvida.

Isso te influenciou para voltar ao ataque?

Meu forte é atacar, todos sabem. Mas na hora de defender, tenho que fazer também. Você falou sobre laterais brasileiros, eles sempre foram mais ofensivos do que os argentinos, claro sem contar o Sorín. Por isso sempre me identifiquei com os brasileiros.

Meu forte é atacar, todos sabem. Mas na hora de defender, tenho que fazer também.

BERNABEI

Na Escócia, viveu uma das grandes rivalidades do futebol mundial, com Celtic e Rangers, que envolve até religião. Tem como comparar ao Gre-Nal?

Sem dúvida. Lá e aqui vivemos loucura. Uma cidade com dois times, uma revolução no dia do jogo. Quando vim para Porto Alegre, me falavam no super: “Ó, domingo tem Gre-Nal, temos de ganhar deles”.

O Gre-Nal sempre foi muito marcante para ti, para o bem e para o mal. Teve assistência, teve gol, teve expulsão. Como tem sido?

O Gre-Nal é um jogo à parte, é um torneio. Tem de sentir diferente, viver assim. Porque é um mínimo detalhe. Vivo assim.

Na resposta anterior, falou em supermercado. Vai ao super?

Sim, levo uma vida normal.

Quando não está jogando, treinando, faz o quê?

Fico bastante em casa. Mas vou ao supermercado, vou ao shopping, gosto muito da orla. Fui ao mercado público também, queria conhecer, comprar minha erva para o chimarrão. Sempre penso que sou jogador, mas quero ter uma vida normal, gosto muito de socializar. As pessoas vão me encontrar em qualquer lugar que eu goste, sem problemas.

Agora vem aí a Copa do Mundo. Quem vai ganhar?

Você tem dúvida? (risos)

Mas e se não ganhar a Argentina?

Ah, acho que tem várias. Espanha, França, Brasil.

Lembra que viralizou um vídeo ano passado falando em te naturalizar brasileiro? Vai jogar pela Seleção?

(Risos) Pô, mas aí quem vai jogar pela Argentina?

Brincadeiras à parte, já teve sondagem para jogar pela seleção argentina? Alimenta o sonho de jogar a Copa de 2030?

Todo mundo quer jogar na seleção. Mas é muito, muito difícil. Nunca me falaram nada. O nível é muito alto, com Tagliafico, Acuña, Valentín Barco, que também mudou de função.

Bom, mas Acuña e Tagliafico vão estar mais velhinhos. Você terá 29 anos.

Sim, nunca pode perder a esperança, sempre tem de continuar sonhando e trabalhar para isso. Porque quem sabe que amanhã recebe a ligação e precisa estar preparado.

Fonte : GZH 

Foto : GZH / Reprodução


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