Com menos poder de pressão e menor flexibilidade para buscar novos mercados, essas empresas encaram um cenário de incertezas
Quando o governo americano anunciou oficialmente, na quarta-feira, 30, que as exportações brasileiras teriam uma taxa extra de 40% (além dos 10% que já estavam em vigor), mas que havia uma lista de quase 700 itens que ficariam de fora desse tarifaço, as reações foram mistas. Quem ficou de fora suspirou aliviado. Quem não escapou voltou imediatamente às conversas com o governo, com seus compradores americanos, com seus assessores, para tentar pressionar o governo de Donald Trump a ampliar essa lista de exceções — e incluir nela o que eles produzem.
Para um grupo grande de empresas, porém, não restou outra alternativa senão entrar em desespero. São as pequenas e médias, que não fazem parte das grandes corporações e não têm associações influentes que as defendam. Muitas investiram por anos a fio para conquistar a confiança dos clientes americanos, em um dos mercados de consumo mais disputados do mundo, e dependem essencialmente dos EUA para sobreviver. Em geral, têm pouca flexibilidade para buscar novos mercados para seus produtos. Nesse momento, navegam num gigantesco e turbulento mar de incertezas.
Na avaliação do ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, os efeitos gerais do tarifaço de Trump na economia brasileira nem devem ser tão fortes assim, pelo fato de o País ser extremamente fechado ao comércio externo. Mas o impacto poderá ser devastador para as médias e pequenas empresas de alguns setores, que têm nos Estados Unidos o seu principal mercado.
Apesar de as tarifas só entrarem em vigor oficialmente no dia 6, algumas dessas empresas já têm sentido os efeitos. Em Bituruna (PR), uma pequena cidade de 15 mil habitantes a 321 quilômetros de Curitiba, a maior empresa do município é a Randa, fabricante de portas, molduras e compensados de madeira que vende para os Estados Unidos.
A economia da cidade depende totalmente da companhia, que foi completamente impactada pelo tarifaço, uma vez que vende mais da metade da produção para os EUA. A fábrica emprega 800 funcionários e estima que 80% da economia do município gire em torno da indústria, somando os empregos diretos e indiretos, fornecedores e o consumo no comércio local.
Antes mesmo de o decreto de Trump ser publicado, 150 funcionários já haviam entrado em férias coletivas, apenas com a carta do presidente americano anunciando a taxação, em 9 de julho. As cargas enviadas nos últimos dias ficaram paradas no Porto de Paranaguá e estão lá até hoje, pois os clientes americanos mandaram esperar até ter certeza de quais produtos seriam impactados pela sobretaxa.
Com a publicação do decreto de Trump na quarta-feira, 30, a incerteza não acabou. O governo dos EUA livrou a madeira tropical da taxação, mas não a madeira de reflorestamento, que é exportada pela empresa de Bituruna e pelas indústrias do Paraná que trabalham com madeira.
O setor havia sido beneficiado por uma isenção em abril, quando Trump anunciou a taxação de 10%. Os produtos da madeira foram enquadrados pelo governo americano na Seção 232, aberta para investigar o efeito das importações sobre a segurança nacional, com uma exceção que beneficiou a madeira de reflorestamento.
Guilherme Ranssoli, CEO da Randa Portas e Compensados Foto: Leonardo Doro da Luz
Agora, com o novo decreto, não ficou claro para os empresários se essa proteção continua ou se o novo decreto vai se impor e taxar a madeira do Paraná que é vendida aos Estados Unidos. “Ficou esse vácuo e agora não sabemos. Resumindo, é incerteza”, diz Guilherme Ranssoli, CEO da Randa.
“Se realmente for concretizado 50%, vamos ter de fazer demissões ou algo nesse sentido. Vamos ter de reinventar outros produtos, buscar alternativas em outros países, mas isso não é uma coisa que muda da noite para o dia”, diz.
Também do setor de madeira, a Sudati — fabricante de compensados e MDF — já anunciou que terá de cortar pelo menos 100 dos seus 2,8 mil empregados “para adequar a produção às incertezas relacionadas à imposição de significativo aumento de tarifas pelos EUA”. Os EUA são um dos principais mercados da companhia, que tem cinco fábricas. Destas, quatro no Paraná, nas cidades de Palmas, Ibaiti, Ventania e Telêmaco Borba, e uma em Santa Catarina, em Otacílio Costa. As demissões serão em Ventania e Telêmaco Borba.
Já a Millpar, que produz guarnições, molduras e acessórios para residências, itens voltados para exportação, especialmente para os EUA, está com 720 dos 1,1 mil trabalhadores em férias coletivas por 30 dias, desde 14 de julho. Esses trabalhadores estão alocados nas unidades dos municípios de Guarapuava e Quedas do Iguaçu, ambos no Paraná, onde são produzidas molduras para exportação.
De acordo com a empresa, neste momento, a operação está parada, com exceção das áreas administrativas. “Estamos tomando decisões com base em dados concretos, visão de longo prazo e foco na sustentabilidade do negócio”, disse o CEO da Millpar, Ettore Giacomet Basile.
Para Welber Barral, há um problema na dependência de algumas empresas de um determinado mercado, o que acaba se tornando um problema em um momento como este. “Veja por exemplo o setor de porcelanato, que não tem sido muito falado. É um setor que basicamente vende pro mercado interno”, diz. “Também exporta bastante pra América Latina, e exporta apenas um pouco para os Estados Unidos. Mas quem exporta para lá agora será muito afetado.”
Será o caso da Incepa, fabricante de porcelanatos e revestimento cerâmicos em Campo Largo (PR). A empresa tem uma planta que depende 90% do mercado americano — ou seja, quase tudo que produz é vendido aos Estados Unidos desde os anos 1970.
A companhia tem 1,4 mil funcionários. As peças, usadas em revestimentos de pisos e paredes, são pequenas, e atraem o consumidor dos EUA, mas não entram com facilidade em outros países, onde a tendência são peças maiores.
Na semana passada, o presidente da empresa, Sergio Wuaden, foi informado do primeiro pedido suspenso por um cliente dos Estados Unidos. O decreto do presidente americano confirmou em seguida que a cerâmica será realmente taxada. Os 13 contêineres que estavam prontos para embarcar no porto de Itapoá (SC) tiveram o processo de exportação cancelado e os produtos terão de voltar à fábrica de Campo Largo.
A empresa calcula que 80% do que ela exporta hoje para os Estados Unidos não poderá ser mais vendido para o mesmo destino. “Estamos fazendo estudos para adaptar a fábrica para outros produtos, mas esse é um investimento de médio e longo prazo que não se faz em menos de seis meses a um ano”, diz o executivo. O Brasil corre o risco de perder mercado nos Estados Unidos para países como Índia, Espanha, Itália, Turquia e Vietnã, segundo ele.
Wuaden é também o presidente do Conselho de Administração da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica (Anfacer). Os maiores produtores estão em São Paulo. Com 45% das exportações brasileiras isentas da taxação de 50%, e com a possibilidade de essa fatia passar da metade se café, carne e frutas também entrarem na lista de exceções, o segmento teme ficar isolado com os outros setores prejudicados e perder a força de pressão.
“A relevância do tema vai perdendo importância na agenda, com o risco muito grande de os setores que ficaram efetivamente com a taxação não terem mais representatividade e holofote que o bloco todo vinha tendo”, afirma.
Pequenos cafeicultores assustados
No agronegócio, os efeitos podem ser ainda mais devastadores. Muitas vezes são produtores muito pequenos, que não terão alternativa a não ser esperar alguma ajuda emergencial do governo para sobreviver enquanto buscam alguma alternativa.
Em Porciúncula, no interior do Rio, o pequeno produtor de café José Natal da Silva tem se mostrado a cada dia mais preocupado com sua situação. “Estamos tristes porque lutamos muito. Passamos anos lutando para chegar a algum lugar. E, de repente, tudo começa a desmoronar e vamos perder tudo”, disse. “Como vamos sobreviver?”
José Natal da Silva em sua propriedade em Porciúncula (RJ) Foto: Bruna Prado/AP
O café é um dos principais produtos de exportação do Brasil, e também passará a pagar uma tarifa de 50% para os Estados Unidos — embora houvesse uma esperança de que esse quadro pudesse ser revertido e o produto também entrasse na lista das exceções, até mesmo para reduzir o impacto na inflação americana. O Brasil é o maior produtor de café do mundo — e os pequenos agricultores são responsáveis por cerca de dois terços dessa produção.
“É assustador. É como se você estivesse em terreno instável”, disse Paulo Vitor Menezes Freitas, que também tem uma modesta plantação de cerca de 35 mil cafeeiros no município de Varre-Sai, também no Rio. “Se as coisas piorarem, o que faremos? As pessoas começarão a arrancar seu café e a encontrar outras formas de sobreviver porque não terão meios para continuar.”
Fora da lista de exceções do tarifaço de Trump, a indústria do pescado começa a buscar alternativas para enfrentar a perda de seu maior mercado externo. É para os EUA que se destinam 70% das exportações de peixes que saem do Brasil.
Entre os principais afetados, os exportadores de peixes frescos e crustáceos do Nordeste têm deixado a maior parte dos barcos de pesca atracados e já estudam negociar com delegacias regionais a suspensão de contratos de trabalho.
“Apesar de sermos uma indústria relativamente pequena em termos de faturamento, empregamos muita gente”, diz Arimar França Filho, diretor da Produmar, uma das maiores exportadoras de peixes frescos para os EUA, e vice-presidente do Sindicato da Indústria de Pesca do Estado do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN).
Fábrica da Produmar em Natal (RN) Foto: Produmar
“Acabei de vir da federação das indústrias (na manhã da quinta-feira, 31) e discutimos alternativas, como o afastamento temporário de funcionários.” Segundo ele, se o tarifaço for mantido, será preciso negociar com a delegacia regional a suspensão temporária dos contratos de trabalho.
Apenas a pesca oceânica no Rio Grande do Norte gera 1,5 mil empregos diretos. A Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca) estima que mais de 1 milhão de empregos serão afetados com o tarifaço.
Os EUA respondem por 97% das vendas ao exterior de peixes produzidos por aquicultura (criação) e 58% dos que são pescados. Dos 30 associados da Abipesca, pelo menos 20 dependem da exportação. / Cristiane Barbieri, Daniel Weterman, Márcia de Chiara e Luiz Guilherme Gerbelli, com AP
Fonte, redação e fotos: Estadão 03 08 2025.